Falar de cura, quando o assunto é câncer, é complexo
Especialistas ouvidos por agências internacionais de checagem de fatos ressaltam que o desenvolvimento de vacinas contra o câncer é muito mais complexo do que o de vacinas contra vírus.
O processo regulatório exige uma sequência rigorosa: estudos pré-clínicos, testes de fase 1 (segurança), fase 2 (eficácia inicial) e fase 3 (avaliação em larga escala com centenas ou milhares de pacientes). Só após esse ciclo é possível afirmar com segurança que um tratamento é eficaz e seguro para uso geral.
No caso do Enteromix, relatos oficiais indicam que ensaios clínicos iniciais envolveram apenas algumas dezenas de voluntários, número típico de estudos de fase 1.
Até o momento, não há publicação científica revisada por pares que comprove eficácia total ou taxa de cura.
Além disso, mesmo declarações de autoridades russas são mais moderadas do que as versões viralizadas nas redes. Em entrevistas, representantes do projeto afirmaram que os testes pré-clínicos mostraram redução no crescimento tumoral entre 60% e 80% em modelos experimentais, não eliminação completa da doença.
O próprio foco inicial da vacina estaria restrito a tipos específicos de câncer, como o colorretal e o melanoma, e não a todos os tumores.
Especialistas em oncologia são categóricos: atualmente não existe terapia oncológica com 100% de cura para todos os pacientes e todos os tipos de câncer.
A palavra “cura”, nesse contexto, costuma ser usada com extrema cautela, pois muitos casos envolvem controle prolongado da doença, não erradicação definitiva.
Isso não significa que a pesquisa russa seja irrelevante. Ao contrário: vacinas personalizadas baseadas em mRNA representam uma das fronteiras mais avançadas da oncologia moderna.
Projetos semelhantes, como o mRNA-4157, desenvolvido por Moderna e Merck contra melanoma, já avançaram para fases clínicas mais robustas após anos de estudos.
Rússia apresenta pouca transparência científica
A diferença está na transparência e na comprovação científica. Enquanto candidatos ocidentais publicam dados detalhados e passam por fases regulatórias internacionais, o Enteromix ainda carece de evidências públicas amplas que sustentem as afirmações mais ambiciosas.
Em resumo, a vacina russa pode representar um avanço promissor na imunoterapia personalizada. Mas, por enquanto, a promessa de uma “cura 100% eficaz contra o câncer” pertence mais ao campo da expectativa e da propaganda do que ao consenso científico consolidado.