Em meio a repressão da ditadura militar, dois grupos revolucionários em decadência se unem para assaltar a casa do político mais poderoso do estado de São Paulo. O roubo do cofre de Adhemar de Barros foi considerado o maior golpe terrorista até então.
Devido a importância de Adhemar na política brasileira, algumas teorias sugerem que segredos políticos importantes estavam documentados no cofre.
O assalto foi fundamental nas ações de guerrilha no Brasil, com um dos membros do evento tendo se tornado Presidente da República.
Conheça agora os pormenores do roubo do cofre de Adhemar de Barros.
Nascido em 1901, Adhemar de Barros era filho de oligarcas do café paulista. Ele se formou na Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro em 1923 e passou alguns anos na Europa fazendo residências em hospitais.
Na volta ao Brasil, ele se casa com Leonor Mendes, filha do jurista Otávio Mendes. Adhemar seguiu carreira como médico até 1932, quando estourou a Revolução Constitucionalista.
Ele serviu o Exército Constitucionalista como médico e conseguiu ser promovido a capitão. Apesar disso, o movimento fracassa e Adhemar se exila em Buenos Aires.
De volta ao Brasil, consegue se eleger deputado pelo Partido Republicano Paulista. Getúlio Vargas o promoveu a Interventor Federal de São Paulo.
O próprio Vargas o exonerou quando foi acusado de corrupção em 1941. Cinco anos depois, ele é inocentado. No ano seguinte, concorre para Governador e vence.
Seus mandatos de Interventor e Governador lhes deram os poderes necessários para criar grandes obras como:
Apesar de suas grandes obras, ele não consegue se reeleger. Em 1954, perde o governo para Jânio Quadros.
Em 1956, o jornalista Paulo Duarte denunciou Adhemar pela aquisição de 36 veículos da General Motors que foram comprados pelo governo oferecendo crédito à empresa.
Os veículos teriam sido refaturados em nome de pessoas e empresas ligados a Adhemar e redistribuídos entre pessoas da sua confiança.
Adhemar foi condenado à dois anos de prisão pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, então se exilou do Brasil pela segunda vez; dessa vez na Bolívia. Ele volta ao Brasil após ser inocentado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Em 1962, Adhemar se elege novamente governador de São Paulo. Ele se posiciona contra o Presidente João Goulart e a favor do General Castelo Branco, mas a aliança acaba quando Adhemar percebe que sem eleições, ele não teria chances de ascender à presidência.
Em outubro de 1965, Castelo Branco caça os direitos políticos de Adhemar e suas condecorações. Assim, ele e Ana, sua amante, se mudam para Paris. Adhemar morreu na capital francesa 4 meses antes do roubo, em 12 de março de 1969.
Adhemar teria deixado 5 milhões de dólares no Brasil. Há teorias de que ele separou a fortuna em oito cofres, mas na verdade foram apenas dois. Acreditava-se que nesses cofres, além de dinheiro, havia documentos com provas de esquemas de corrupção.
O historiador Elio Gaspari afirmou o seguinte sobre o conteúdo dos cofres:
“Era dinheiro roubado, tomado por empreiteiros de bancas de bicho”.
Ana, sempre que perguntada, dizia que os cofres estavam vazios, mas a bibliografia a respeito do caso a desmentiu.
Cada cofre ficou com um dos irmãos da amante de Adhemar. O que foi roubado foi o que ficou na casa de Aarão Benchimol, que vivia com o estudante secundarista Gustavo Schiller.
Schiller, por sua vez, tinha ligação com movimentos de guerrilha. A informação de que em sua casa tinha um cofre de um poderoso político de São Paulo chegou aos ouvidos de Juarez de Brito, membro da recém formada VAR Palmares.
Em 18 de julho de 1969, 11 guerrilheiros da VAR foram até a casa de Aarão Benchimol e rendem o segurança. Eles chegaram em dois carros: uma Rural Willys e uma Chevrolet C-14.
Os assaltantes entraram com os carros e estacionaram a C-14 no pé da escada. Em menos de dez minutos, renderam todos na casa. O cofre foi achado embaixo da escada e colocado em cima de uma plataforma de madeira e jogado escada abaixo.
A ideia era que caísse dentro do bagageiro da C-14, mas acabou se desprendendo enquanto descia. Os ladrões tiveram que carregar o cofre até o carro. Em menos de meia hora, a operação foi bem sucedida.
Na base da guerrilha em Jacarepagua, o metalúrgico revolucionário Jesus Soto abriu o cofre em 15 minutos. Dentro dele tinham mais de 2 milhões de dólares.
Um milhão foi enviado a Hafid Keramane, embaixador da Argélia no Brasil e membro da Frente de Libertação Nacional (FLN). Ele abriu uma conta na Suíça e passou a usar o dinheiro para financiar as práticas de guerrilha.
Bem sucedidos, o grupo começou a rachar. Duas facções foram formadas:
Os foquistas, formados por Juarez de Brito e sua esposa, José Araujo e Lamarca ficaram com a maior parte do dinheiro e refundaram a VPR. O restante ficou com os massistas, formados por Antonio Espinosa, Carlos Araújo e sua namorada, Dilma Rousseff.
Em 4 de setembro de 1969, o embaixador Charles Burke é sequestrado. Os foquistas o trocaram por uma série de prisioneiros. Entre eles, Onofre Pinto. O líder original da VPR retornou.
A partir dos anos 70, os revolucionários começam a ser pegos um a um. Dilma e Espinosa são presos. Juarez e sua esposa Maria do Carmo são cercados pela polícia. Ele se mata e ela é presa e torturada.
Maria é trocada pelo embaixador alemão que também havia sido sequestrado. Ela se exila na Argélia. Por ordem de Onofre, ela faz contato com Ângelo Pezzuti, um dos fundadores da antiga Colina. Ele consegue o dinheiro com Keramane.
Onofre confiou no homem errado para liderar a VPR. Ele entregou o comando nas mãos do Cabo José Anselmo dos Santos. Ele havia sido líder de protestos dentro do exército e Presidente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais.
Seu passado conquistou a confiança de Onofre, mas ele escondeu que em 1971, havia se tornado um “cachorro”. Era assim que os informantes do delegado Sérgio Fleury eram chamados.
Onofre deu 50 mil dólares a Anselmo e mandou que estabelecesse a VPR no Recife. Ele construiu uma base na cidade com sua mulher, Soledad.
A moça recebeu uma mensagem delatando a identidade secreta de Anselmo. Ela não acredita e lhe mostra o bilhete. Logo depois, é morta enquanto está grávida de 4 meses.
Os revolucionários tinham como principal referência as ações de Che Guevara e Fidel Castro em Cuba.
A história da gangue que assaltou o cofre se inicia com outras duas facções: a VPR e a Colina.
A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) surgiu sob a liderança de Onofre Pinto, presidente da Associação dos Sargentos e Suboficiais da polícia de São Paulo. Ele já liderava um grupo comunista dentro do quartel de Quitaúna desde antes do Golpe Militar.
A guerrilha foi criada com membros de outras duas facções. O Movimento Nacionalista Revolucionário de Leonel Brizola e o Organização Revolucionária Marxista - Política Operária (POLOP).
Durante o ano de 1968, a VPR foi responsável por vários atentados. Entre os principais, estão o assalto de 11 fuzis FAL de um hospital militar e atacou o quartel general do segundo exército com um carro bomba.
O grupo ainda assassinou Charles Chandler, um veterano da Guerra do Vietnã que estava cursando Pós-Graduação na Escola de Sociologia e Política da Fundação Álvares Penteado.
Onofre tinha um plano para expandir as ações do grupo. Ele contatou seu colega de quartel, Carlos Lamarca, e o convenceu a tentar uma fuga no dia 26 de janeiro de 1969. A ideia era Lamarca fugir com 3 soldados, 560 fuzis e 2 morteiros.
As coisas saíram do controle quando membros da VPR foram presos três dias antes da operação. Com informações comprometidas, o plano foi cancelado e Lamarca teve de fugir em uma kombi com 63 fuzis e 3 submetralhadoras.
Isso marcou a derrocada da VPR, que foi sacramentada com a prisão de Onofre em 2 de março de 1969. Sem seu líder, o grupo se desfez. Os membros restantes fugiram para o Rio de Janeiro. Eles não esperavam que os remanescentes da Colina teriam a mesma ideia.
O Comando de Libertação Nacional (Colina) já era conhecido em Belo Horizonte por ser um grupo radical de resistência. Suas principais atividades envolviam assaltos a bancos e carros-fortes, mas também atentados contra membros do governo militar.
Assim como a VPR, o grupo foi aos poucos sofrendo baixas, tendo seus membros presos ou mortos. O que restou dos guerrilheiros de Minas Gerais fugiu para o Rio de Janeiro.
Em 1 de julho de 1969, os remanescentes das duas gangues se encontram. Da fusão entre eles, surgia a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR Palmares).
A gangue surgia com 312 membros e um arsenal razoável. O que eles tinham pela frente era um dos maiores golpes do terrorismo mundial até aquele momento.
Para saber mais sobre a Ditadura Militar em detalhes, assista o documentário da Brasil Paralelo: 1964 - O Brasil entre armas e livros. Veja o trailer:
Assista ao filme completo:
Carlos Araújo foi preso em 1970 e solto quatro anos depois. Foi casado com Dilma por 25 anos. Teve uma filha com ela e se elegeu deputado estadual diversas vezes. Morreu em 2017.
Gustavo Schiller falhou em participar da guerrilha no Chile e na Argentina. Mudou para Paris, mas voltou ao Brasil para fazer doutorado. Ele cometeu suicídio em 22 de setembro de 1985.
Cabo Anselmo desapareceu por um tempo, mas voltou nos 90 e deu diversas entrevistas. Morreu em março de 2022.
Onofre Pinto foi traído por outro informante além de Anselmo. Isso o levou a ser morto por militares no Paraná em junho de 1974.
Dilma Rousseff foi presa em 1970 e solta três anos depois. Estudou economia na Federal do Rio Grande do Sul.
Filiou-se ao PT em 2002 e foi escolhida como Ministra de Minas e Energia por Lula. Ainda foi Ministra da Casa Civil. Em 2010, é eleita Presidente do Brasil e consegue a reeleição em 2014.
Em 2016, sofreu um impeachment devido a escândalos de corrupção, manobras financeiras e ingerência do partido para com relação ao país. Ela tentou se eleger para o Senado, mas não conseguiu.
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