Pensadores de direita defendem que a direita acredita em um melhor funcionamento da sociedade quando o governo é limitado, afirma José Pedro Galvão de Souza, tradicionalista político e um dos fundadores da PUC-SP, e Russel Kirk, professor universitário dos EUA e autor de diversos livros sobre conservadorismo.
A maior parte da direita defende que o Estado deve ser menor e cuidar apenas do essencial, restringindo-se às necessidades mais absolutas das pessoas. Esse postulado ficou conhecido como princípio da subsidiariedade.
Neste pensamento, o governo é o último recurso, acionado apenas quando as pessoas e seus grupos sociais mais concretos não podem fazer nada por si mesmas, como família, associações locais, igrejas e afins.
Exemplos de necessidades do governo federal seriam a defesa nacional, a garantia de abastecimento de energia elétrica, água, etc.
Defesa do bem comum
Um dos principais objetivos da direita é o bem comum. Segundo o jornal Gazeta do Povo, o “bem comum” não é meramente sinônimo de prosperidade material, também não é o “bem da maioria”, como defendem os utilitaristas.
O bem comum é um estado de coisas que permite a cada indivíduo buscar o próprio desenvolvimento integral. Para isso, a riqueza econômica não basta.
Esse objetivo social exige a existência de valores culturais e artísticos, um ambiente de paz e justiça, conhecimentos científicos e tecnológicos e um clima geral de estímulo pela busca da excelência, algo que cabe à sociedade, mais que ao Estado, promover.
Visão da direita sobre o Estado
Margaret Thatcher e Ronald Reagan são exemplos de políticos de direita do século XX. Na visão deles, se o governo cresce no poder e começa a dominar as esferas sociais, decorrem disso consequências como:
- Aumento da corrupção. O poder e dinheiro acumulados e centralizados podem gerá-la ou aumentá-la.. Agentes do governo podem ser seduzidos a vender influência em troca de ganhos pessoais e políticos mais facilmente.
- Diminuição da liberdade individual. A liberdade individual tem um lugar de maior destaque para os grupos de direita. Quanto menor o controle do governo sobre a vida das pessoas, maior será a preservação da liberdade. Mas se o governo começa a interferir cada vez mais, a liberdade também diminui.
- Colapso de governos inchados. Governos sempre crescendo em poder sobre a vida das pessoas, geralmente ou reduzem seu tamanho, ou entram em colapso econômico. O dinheiro dos benefícios sociais vem dos impostos públicos e quando a recorrência ou o abastecimento diminui, o sistema começa a falência;
- Aumentos constantes de impostos. Quando os valores cruzam a linha da insustentabilidade para as famílias, o desemprego e as migrações podem aumentar proporcionalmente.
- Mancha no caráter nacional. Com liberdades diminuídas por um Estado abrangente e regulador, empresas fecham as portas pelo risco de se investir em um ambiente assim. Decorre disso desemprego e fome.
Os diferentes grupos da direita
Com o passar do tempo, a direita foi se dividindo em grupos com visões distintas da política e da vida. Alguns dos principais grupos que se formaram na direita foram:
- tradicionalistas políticos;
- conservadores;
- liberais;
- libertários.
Tradicionalistas políticos
Um dos principais representantes desse grupo é o fundador da PUC-SP, o professor de Direito José Pedro Galvão de Souza.
Para ele, o governo federal moderno se agigantou e suplantou os corpos intermédios, grupos orgânicos da sociedade que regiam a população em nível micro, como os municípios, as corporações de ofício e as associações religiosas e culturais.
José Pedro e outros tradicionalistas políticos, como o professor Sidney Silveira, defendem que os primeiros grupos sociais, conforme exposto por Aristóteles e Santo Tomás de Aquino, possuem primazia face ao governo. Para ele, a hierarquia correta da sociedade seria algo como:
- Família;
- Igreja;
- Corpos Intermédios e
- Estado.
O professor também defendia que a lei positiva não pode entrar em contradição com a lei natural, seguindo a linha de pensamento de Aristóteles, Santo Tomás de Aquino e outros autores clássicos.
Essas leis são descobertas pela razão natural e explicadas pela disciplina da metafísica.
- Entenda mais sobre a lei natural e a metafísica com os artigos sobre o pensamento de Aristóteles e Santo Tomás de Aquino.
Alicerçado na organização política da Espanha e Portugal, José também defendia que os municípios deveriam ter primazia de poder em face dos Estados e da União.
Conservadores
Os conservadores, representados por nomes como Edmund Burke e Roger Scruton, defendem que as sociedades devem defender os valores e as instituições que provaram dar bons frutos na história de um país.
Para eles, os valores de uma sociedade não devem ser mudados radicalmente em pouco tempo, já que não é possível saber quais serão os frutos de uma visão de mundo inédita.
Os conservadores típicos valorizam a cultura nacional, desde que se respeite o conjunto de valores conhecidos como lei natural, ou seja, leis morais que são estabelecidas pela realidade, pela natureza, como não cometer homicídio e não roubar.
Outro ponto importante para entender o que é conservadorismo é a ideia de que não existe bom selvagem. Considerando o homem com uma natureza inclinada ao mal, não fará sentido projetar sociedades ideais e utópicas para o pensamento conservador.
Se no estudo da tradição é patente que o homem comete um conjunto de crimes típicos, o pensamento sobre o que é justiça e ordem social devem se basear nisso, e não na possibilidade de o homem mudar a própria natureza, afirma Russel Kirk no livro A Mentalidade Conservadora.
Liberalismo
O Liberalismo, segundo seus principais teóricos, é uma doutrina que luta pela liberdade e pelos direitos individuais, e pela proteção da propriedade privada em resumo, afirma o dicionário Oxford Languages.
Seu surgimento é consequência do desejo de alguns grupos de limitar a ação do Estado na vida de cada cidadão e na economia.
A ideia do Estado Mínimo, portanto, é uma das máximas do Liberalismo, afirma John Dunn, professor de ciências sociais da Universidade de Cambridge. Outro ponto importante é a ideia do mérito. Cada indivíduo pode possuir mais ou menos bens e realizações com base no seu esforço individual para alcançar seus objetivos.
No campo moral, há a valorização da liberdade individual, portanto há uma oposição à moral preconizada pelos conservadores tradicionais, afirma o filósofo Roger Scruton.
Libertarianismo
O libertarianismo é uma corrente de pensamento liberal que defende uma sociedade sem Estado. Murray Rothbard foi o primeiro autor dessa linha de pensamento, ele se baseou nas teorias econômicas e políticas da Escola Austríaca de Economia.
Segundo teóricos do anarcocapitalismo, como David Friedman, formado na Universidade de Harvard, a economia funcionará de forma mais justa e eficaz sem o Estado, já que os comerciantes seguirão a lei do mercado, organicamente determinada, para determinar os preços de cada produto sem arcar com os ônus dos impostos.
Para esse grupo, a sociedade também funcionará melhor, já que cada pessoa poderá seguir suas próprias escolhas de vida, sem existir um grupo como o Estado para impedir a realização de suas escolhas.
Nova Direita no Brasil
Os grupos mencionados e outros grupos de direita foram influentes na mentalidade política do Brasil contemporaneo. Cartazes das manifestações de 2013 como “Olavo tem razão” e “Mais Mises e Menos Marx” mostram que a nova direita estava em ascensão.
A jornada de 2013 a 2023 não marca apenas o ressurgimento da direita no Brasil, marca uma década de transformação na história política brasileira.
A nova direita, como foi chamada, é um movimento que ressurge de forma improvável, em meio a manifestações estudantis convocadas pelas redes sociais.
Um movimento que une liberais, monarquistas, conservadores e, acima de tudo, pessoas insatisfeitas com os rumos do país em busca de uma alternativa.
Uma trajetória acidentada que viu na internet sua maior força e nas ruas do país seu principal palco.
Animada pelo êxito da Lava-Jato e pela perspectiva histórica da justiça ser feita no país da impunidade, a direita se fortaleceu unindo classes divergentes em torno de 3 causas:
- a anticorrupção;
- o anticomunismo e
- pautas morais favoráveis à família.
Contudo, o que se cunhou como "nova direita" não obteve apenas vitórias. Diversos rachas internos vieram a público após a eleição e derrota de Jair Bolsonaro e brigas entre grupos considerados de direita, podendo suscitar as seguintes perguntas:
- Como um movimento político desorganizado e desacreditado conseguiu unir a maioria do país para tirar uma presidente do poder e eleger o seu candidato em um curto espaço de tempo?
- Quais foram os impactos reais e concretos para a direita brasileira de eleger um presidente sem antes construir um suporte partidário, cultural, educacional e militante?
- Por que tantos rachas internos na direita vieram a público? Houve algum responsável por enfraquecer o movimento?
- O legado deixado pela Operação Lava-Jato e pelo governo de Jair Bolsonaro foi positivo para o país?
- Quais as diferenças entre a nova direita que protagonizou a maior manifestação política da história do país, feita de forma pacífica e ordeira, para os manifestantes que protagonizaram o 08 de janeiro de 2023?
A produção Original BP A Nova Direita vem para responder todas essas perguntas e fazer uma autocrítica da última década do movimento.
Protagonistas do ressurgimento da direita participam de uma conversa franca para ajudar o espectador a compreender: afinal, existe um futuro para a direita no Brasil?